Atenção ao Mercado

“Atenção ao Mercado,
que é minha vida!

Atenção ao Mercado,
companheiros!

Cuidado com ferir
os pescados!
Já em lua-cheia, entre as traições
da rede invisível, do anzol,
por mão de pescante pescador
faleceram, acreditavam
na imortalidade
e aqui os tens
com escamas e vísceras, a prata com o sangue
na balança.

Cuidado com as aves!
Não toques essas plumas
que ansiaram o vôo,
o vôo
que tu também, tu próprio
pequeno coração se propunha.
Agora são sagradas:
pertencem
ao pé da morte e ao dinheiro:
nessa dura paz ferruginosa
se encontrarão de novo com tua vida
uma vez, mas não virá ninguém
ver-te morto, apesar das tuas virtudes,
não porão atenção ao teu esqueleto.
Atenção a cor das laranjas,
ao essencial aroma da menta”
(…)
(…)

P. Neruda

***

trecho reproduzido da edição traduzida da ed. Salamandra (1980).

original Memorial de Isla Negra (1977)

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